Quando vejo um
político do PT defender os criminosos condenados pelo STF no caso do Mensalão, lembro-me de um conto do grande Machado de Assis, chamado A Igreja do Diabo, no qual desfia a história do Satanás que, invejoso do sucesso de Deus entre os homens, quis fazer uma igreja só sua.
Para isto, o Canhoto fez seus estatutos invertendo quase todos os cânones cristãos, menos o da união entre os seus crentes, pois, sem ela, não poderia chegar ao êxito de multidões, naturalmente.
Se havia um código, dariam como legítima a empreitada, que é mais ou menos como falam em defesa do sr. José Dirceu e companhia, pois o estatuto da impunidade é o que mais lhes aquece o coração.
Diz, num de seus trechos:
As turbas corriam atrás dele, entusiasmadas. O Diabo incutia-lhes, a grandes golpes de eloquência, toda a nova ordem de coisas, trocando a noção delas, fazendo amar as perversas e detestar as sãs.
Nada mais curioso, por exemplo, do que a definição que ele dava da fraude. Chamava-lhe o braço esquerdo do homem; o braço direito era a força; e concluía: Muitos homens são canhotos, eis tudo. Ora, ele não exigia que todos fossem canhotos; não era exclusivista. Que uns fossem canhotos, outro destros; aceitava a todos, menos os que não fossem nada. A demonstração, porém, mais rigorosa e profunda, foi a da venalidade. Um casuísta do tempo chegou a confessar que era um monumento de lógica. A venalidade, disse o Diabo, era o exercício de um direito superior a todos os direitos. Se tu podes vender a tua casa, o teu boi, o teu sapato, o teu chapéu, coisas que são tuas por uma razão jurídica e legal, mas que, em todo caso, estão fora de ti, como é que não podes vender a tua opinião, o teu voto, a tua palavra, a tua fé, coisas que são mais do que tuas, porque são a tua própria consciência, isto é, tu mesmo?
Negá-lo é cair no absurdo e no contraditório. Pois não há mulheres que vendem os cabelos? Não pode um homem vender uma parte do seu sangue para transfundi-lo a outro homem anêmico? E o sangue e os cabelos, partes físicas, terão um privilégio que se nega ao caráter, à porção moral do homem? Demonstrando assim o princípio, o Diabo não se demorou a expor as vantagens de ordem temporal ou pecuniária; depois, mostrou ainda que, à vista do preconceito social, conviria dissimular o exercício de um direito tão legítimo, o que era exercer ao mesmo tempo a venalidade e a hipocrisia, isto é, merecer duplicadamente.
Mas o Diabo teve uma grande decepção, pegou alguns antes fiéis fazendo o bem às escondidas.
Foi queixar-se a Deus, que lhe respondeu para levar sempre em consideração as fraquezas humanas.
E, vejam só, bastou o STF contrariar os estatutos pelos quais vêm rezando há décadas, se não séculos, para virem todos se queixar da injustiça das coisas.