sexta-feira, 15 de junho de 2012

Cachorro mordido de cobra tem medo de linguiça

É burlesca, dentro da tragédia com que convivemos no cenário político brasileiro, a reação de alguns parlamentares a qualquer sinal de coisa queimando, seja indicativo de amendoim torrado na carrocinha da esquina, quiçá um incêndio no corpo central do edifício onde more.
Não lhes importa: havendo fumaça, é incêndio na certa; e sempre na sua própria vizinhança.
Para eles, acostumados a tantos apontamentos por suspeitas de atitudes pouco ortodoxas, urge reagir imediatamente a qualquer palavra em tom mais elevado de um de seus adversários.
Antes mesmo de análise de mérito.

Foi o que aconteceu ontem na CPMI, quando o deputado Miro Teixeira levantou uma questão.
http://pt.wikipedia.org/wiki/miro_teixeira
Deputado Miro Teixeira
Pedia investigação sobre o envolvimento de parlamentares com o sr. Cavendish em Paris - mais uma vez a capital francesa como ponto fulcral -, durante a Semana Santa deste ano, vinte dias antes do início da CPMI do Cachoeira.

O deputado não fizera acusações. Pedira apuração.

http://pt.wikipedia.org/wiki/C%C3%A2ndido_Vaccarezza
Deputado Cândido Vaccarezza
Por seu turno, o deputado Cândido Vaccarezza - de olhar perdido, do alto de sua sensibilidade epidérmica aflorada, onde  nenúfares brotoejantes extemporâneos e recentes no outono de sua carreira soem aparecer em profusão como gigogas no pântano - levantou-se para contestar o requerente, acusando-o de leviandade ao aproveitar-se de imunidade e foro privilegiados para acusações sem rostos.


Isto, como de outras vezes, equivale a uma assinatura num recibo. Equivale, ao lançarmos mão de uma prática no futebol de várzea, anular o lance de um atacante por perigo de gol. Desejava, antes mesmo de haver um fato, que nomes fossem dados. Incluiu-se, deste modo, num esquema criado por ele mesmo, que urgia sacudir fora do corpo vigorosamente, como fazem os lanosos encharcados.

Aqui entra a  parte risível - um esgar, na verdade - do que anda no coração e mentes dos integrantes do estado brasileiro: a investigação é deletéria, pois, deduz-se, pode-se encontrar algum crime no fim do procedimento.
E é por isto também que negaram a investigação da Delta nacional, preliminarmente e, teimosa  repetidamente, a convocação do ex-presidente da empresa considerada inidônea.
E persona non grata pelo próprio governo que sustentam!

A barreira para aprovar a investigação em âmbito global da Delta caiu, mas não a má vontade de fazê-la. Continua travada por postergações.
Certamente cairão os argumentos para evitar o chamamento do dono da Delta, mas decorrerão alguns dias até isto acontecer.

Não obstante a reação preventiva do sr. Vaccarezza, nomes já apareceram hoje de manhã nos jornais. E é fato confirmado por um deles, o senador Ciro Nogueira, um dos participantes da reunião em França.
http://pt.wikipedia.org/wiki/Ciro_Nogueira
Senador Ciro Nogueira
Poderão dizer, quem sabe, que, embora instalada, a Comissão não havia convocado ninguém e que deste modo não haveria contaminação entre a moral e a praticidade dos jantares, mas a verdade parece escapar-lhes das mãos.

Cabe perguntar, então sob esta hipótesse e também por outro lado, se vergonha e compostura dependem de calendário, de evento, sabidos que eram dos andamentos da Delta nos noticiários muito antes do início dos trabalhos da Comissão.
Acresce-se aí a participação suspeita na sabatina de ontem: não era o caso de se considerarem impedidos, uma vez que fortuitamente se encontraram com o investigado?

De há muito que o sr. Cavendish usara lenços cândidos na cabeça naquela capital europeia; muitos meses antes desse encontro cacumbúnico, as solas rubras dos sapatos das primeiras-damas da irmandade Delta pisaram o bom-gosto e o comedimento naquelas latitudes.
Tudo indicativo, sintomático e umbilicalmente ligado às famosas  palavras de Maria Antonieta   - embora historicamente duvidosas de haverem sido proferidas por ela e alheia à dificuldade do seu povo. A rainha cometera um pecado venial, em comparação com o que se pressente ter sido falado nos vários negócios estranhos até aqui, por detrás do que foi escrito, razão das recusas à investigação em terras brasileiras.

E o mais esquisito é que a Polícia Federal coletara todos os indícios, provas e contrapovas das irregularidades. Só faltam ser julgados pelo Poder específico.

Enfim, investigação parlamentar é uma palavra revogada na reforma ortográfica da maioria cepeemeísta.
Investigação não é inquérito? E CPMI não é o mesmo que Comissão Parlamentar Mista de Investigação?

Quem sabe tentam revogar o sinônimo também; só por via das dúvidas.






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