As disputas políticas através da CPMI estão bastante enxadrísticas, segundo se vislumbra no geral.
E, em Brasília e alhures, dizem, o mais bobo conserta relógio no escuro usando luvas de boxe.
E, em Brasília e alhures, dizem, o mais bobo conserta relógio no escuro usando luvas de boxe.
E, destarte, não seria nada estranha uma hipotética conversa como esta:
- Venho aqui de coração aberto pedir ajuda. Amanhã vou depor na CPMI e estou bastante vulnerável...
- Que não me apertem muito, que me defendam na sessão.
Seu interlocutor coça o queixo, que é o que os grandes homens sempre fazem, quando recorrem a suas experiências vividas.
Seu interlocutor coça o queixo, que é o que os grandes homens sempre fazem, quando recorrem a suas experiências vividas.
- Bem, faremos assim: você apresenta sua versão conforme fez o Marconi e do jeito que você combinou com seu advogado; aí vamos entrar com uma tática adicional.
- Qual, qual? - responde o requerente de alma enfrangalhada; vislumbra uma ponta de esperança.
- Diga lá que você abre seu sigilo bancário, telefônico, escrito, tudo aos membros da Comissão...
- Com todo o respeito, não posso... Abrir? Acho que não entendi muito bem... Não vai dar certo... Vai ter coisa lá que posso não conseguir explicar por vários motivos...
- Não se preocupe, homem de pouca fé... Não se lembra que temos a maioria? Basta um telefonema para os líderes e ninguém vai votar a favor disto... Mas, veja bem, você vai ficar muito bem na fita e o Marconi vai revirar na tumba!
- Se me permite, o Marconi não morreu ainda...
- Tá morto politicamente e amanhã você vai acabar por enterrar ele. São duas coelhadas com um cajado só... Quer dizer, uma cajadada e dois coelhos: você se safa e ele se ferra. Ele andou incomodando há tempos.
Agnelo abre um imenso sorriso. O outro continua:
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| Agnelo Queiroz |
Agnelo reflete por alguns instantes.
- Dizem que é melhor ter um amigo na praça do que dinheiro no banco, agora entendo bem o que isto significa.
- Vai em paz...
- Boa noite... - responde, já entendendo que nada mais precisa ser dito e que está em mãos boas e competentes.
Já não é aquele homem arrasado que entrara naquele gabinete. A vida, enfim, é boa.
Já não é aquele homem arrasado que entrara naquele gabinete. A vida, enfim, é boa.
Agnelo estende a mão, comovido, com lágrimas inundando a alma. Em seguida dirige-se à porta; para, volta meio corpo, inclina-se levemente em direção à cadeira de espaldar alto e sorri, em sinal de admiração e respeito, fechando a porta atrás de si.
Cai o pano.
No dia seguinte, dito e feito, o governador do Distrito Federal se defende como pode na CPI e, num certo ponto estratégico, respira fundo e lança sua cartada triunfal combinada.
A reação é imediata, o burburinho se instala, palmas espocam aqui e ali - a princípio tímidas para, em seguida, tornar-se um alarido vigoroso, a explodir na base aliada. Seu coração se aquece: "Alea jacta est!".
Logo os jornais falados e escritos retumbarão o grande gesto; um tapa na cara de Perillo com luvas de pregos e embebidas em álcool.
Logo os jornais falados e escritos retumbarão o grande gesto; um tapa na cara de Perillo com luvas de pregos e embebidas em álcool.
Dera certo. Não se falou noutra coisa. Agnelo saía à frente numa Ferrari de fórmula-um na corrida dos bons costumes e expunha sua honestidade estridente contra o silêncio ensurdecedor da culpabilidade escamoteada de seu concorrente moral.
Quilômetros dali, Marconi cofiava uma barba imaginária e pensava com seus botões.
"Este Agnelo é esperto... Ponto para ele..." - pensou, enquanto lançava uma praga sem palavras sobre o que considerava um teatro.
Marconi se afunda na cadeira de couro macio e pensa no que fazer. Deverá haver um meio de reverter isto? Parece que não, até que algo nasce no fundinho do terreno perdido, desenrolando sua primeira cambuquira timidamente. Em poucos minutos se alastra horizontalmente e logo logo alguns frutos reconchudos inflam-se como balões vegetais.
"É isto... É isto... Repetia para si...".
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| Marconi Perillo |
- Secretário! Secretário... Quero falar com os líderes da oposição e com os integrantes do partido. Vai pondo um a um no telefone, por favor. Rápido!
Alguns minutos após:
- Alô, meu líder! Que prazer... Tudo bem, tudo bem... Caminhando... Isto... Isto... Ó, gostaria de comunicar que desejo abrir meu sigilo bancário, de telefone, de tudo para a Comissão... Isto, isto... Por quê? Bem, porque Agnelo abriu o dele, não posso ficar nesta posição...
A conversa se repetiu nos demais telefonemas.
Quilômetros dali, de volta ao cenário mais próximo à Comissão, um telefone toca.
- Agnelo!
- Ah! É o senhor! Estou muito agradecido! Maravilha!
- Agnelo! Maravilha coisa nenhuma... A coisa degringolou!
- Como? Não ouvi bem...
- Ouviu, sim... Degringolou...
- De... Degrin... Degringolou? Mas os jornais não falaram noutra coisa, sempre a meu favor desde que acabou o depoimento!
- Agnelo! Escuta bem. Era uma abertura de mentirinha, fake, não lembra?
- Si... Sim... - gaguejou Agnelo, pressentindo algo ruim.
- O Marconi abriu o sigilo dele também!
- Ué, mas eu saí na frente! Se quiser abrir o dele, que abra! Agora é tarde para ele, o impacto já passou...
O interlocutor respira fundo.
- Agnelo! - repetiu o nome do apadrinhado pela quarta vez naquela conversa - Tu não estás vendo... Estás embriagado pela tua vitória de Pirro: vais ter de abrir o teu sigilo! - disse a Voz, agora aplicando o pronome mais verrumoso para o momento, sem, contudo, deve ser ressaltado, cometer o erro de concordância da desastrada mensagem de Vaccarezza ao governador Sérgio Cabral.
- Ai! Por quê?
- Agnelo! - repetiu o interlocutor, já perdendo a conta das vezes que repetira o chamado - Não tem como te blindar mais; a Comissão vai ter de votar o sim! Marconi sairia livre, se votássemos o não para ti, por analogia.
Silêncio do outro lado da linha.
- Agnelo! Agnelo? Agnelo! Agnelo? - a Voz chamava, já não dando mais atenção à aritmética.
Um plaft, uma perfeita onomatopeia, foi tudo que ouviu. A Voz, sem entender bem, olhou o fone em suas mãos, consultou o relógio, pôs o fone no gancho e pensou lá com seus botões: "Ah! Novatos... Novatos..."
Um plaft, uma perfeita onomatopeia, foi tudo que ouviu. A Voz, sem entender bem, olhou o fone em suas mãos, consultou o relógio, pôs o fone no gancho e pensou lá com seus botões: "Ah! Novatos... Novatos..."
A vida imita a arte e, a arte, a vida; e, nesta república, tudo é ficção.


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