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| Cidade do Rio de Janeiro |
As opiniões nos dizem que o presidente Juscelino Kubitschek levou a capital da república para o centro geográfico do mapa político do país para que a administração passasse a ser equidistante para todos aqueles que viviam no território nacional.
Complementarmente, opina-se que era também a intenção ocupar o país - após atrair pessoas para o centro - de cima para baixo, aproveitando as águas que descem do planalto para as demais regiões, promovendo, assim, a evolução econômica no sentido inverso ao histórico em que se deram todas as ocupações territoriais humanas em todos os continentes.
Além disto, também dizem que já era clara a impossibilidade de continuar com a sede administrativa no Rio de Janeiro, uma vez que a proximidade com a população não mais daria a segurança física necessária aos integrantes do governo.
Dessas explicações, não podemos sentir que a primeira e a segunda chegaram a êxito nas suas intenções, mas temos a confirmação de que a última foi verdadeiramente um sucesso.
Desde sua origem, a se dar crédito à segunda, Brasília parece exercer sua vocação e DNA: vai na contramão da História.
Longe dos olhos, longe do coração, a capital-poder tornou-se diáfana, assim como os representantes eleitos que nela foram instalar-se e não foi nenhum exagero ter sido chamada anos depois de Ilha da Fantasia, em remedo à série televisiva onde os sonhos magicamente se transformavam em realidade.
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| Brasília |
Infelizmente para o eleitorado, somente nos capítulos da ficção novelesca de Tatoo e mr. Rourke é que se podia obter algo de bom e a favor duradouramente.
Este foi o princípio e é a atualidade pungente. O recheio foi a ditadura militar que, através do cala-a-boca-senão-te-arrebento, pôs a governança atrás de biombos nada translúcidos.
Juntando-se a psicologia da vaporosidade figurativa dos representantes aos portões de ferro que preservavam os segredos dos atos e decisões militares, a população aceitou a vacância administrativa palpável e intuiu que, se algum poder havia para normatizar a economia e a justiça, suas coordenadas geográficas não vinham à luz com algarismos significativos. Cuidava, portanto, tocar suas vidas, cada um um reino em si mesmo, soberano e vassalo de sua própria existência brasileira.
O desinteresse instalou-se.
Entretanto, a aparente inércia crítica decorre da falta de líderes verdadeiros, que vicejam apenas pelo contato físico, regados por mãos que distam apenas um braço de alcance.
Há figuras que usam terno e gravata, faixas presidenciais, comendas, isto há, mas apresentam-se apenas como imagens e sons teletransportados; não mais que isto.
Têm a consistência e a efemeridade de uma sombra na parede, que sucumbe a um dedo eventual num interruptor para o fim de sessão.
A celeridade na troca desses fotogramas fantasmagóricos traz mais um fenômeno: a falta da permanência na memória das figuras projetadas, embora firmemente gravados na retina e no tímpano a sua vacuidade física. Isto se percebe bem e cumulativamente, embora não claro à analise rápida no dia-a-dia.
Elas passam, como tudo na vida, para desespero dos que esperneiam contra o corte da onda luminífera que lhes dá sustentação da existência fingida.
A mesquinharia se lê nos jornais diariamente. O fisiologismo corre solto como um direito adquirido, fazendo parte da ética invertida rir-se de um honesto.
Ironicamente, a rodovia que liga Brasília ao Rio de Janeiro parece atar também as duas pontas da história, começando na Estrada Parque de Indústria e Abastecimento em Brasília e findando na Praça Mauá, no Rio de Janeiro.
Não começaram planalto abaixo a indústria de ideias, o abastecimento de efetiva cidadania, e nem mesmo um fogo fátuo que ao menos se pareça com a glória empreendedora de um Irineu Evangelista de Sousa, mas a insensatez encastelada refinou-se exemplarmente.


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