Os desmandos que a imprensa tem mostrado nos últimos anos mais intensamente aparecem, a uma análise superficial, como uma novidade na prática do desvio de recursos em mãos do estado para cofres particulares.
Também imagina-se que tais fluxos se dão apenas na face financeira.
É amplo. É bem mais amplo.
Os maus dirigentes e outros nomeados desviam algo mais profundamente importante: a concepção de cidadania.
E não só contra aqueles, os que estão diretamente na linha de tiro de suas ações, mas também contra si mesmos.
O Cidadão, conforme diz o Aurélio, entre outras acepções, é uma pessoa que tem direitos e deveres para com uma Nação.
Não quero escrever aqui Estado, assim, com letras maiúsculas, que leva à idéia de algo acima das pessoas.
O importante não é a organização, mas quem faz parte dela. Sempre.
Mãos ágeis na prática de más ações tornam seus donos um estado em si mesmos, mas com apenas metade das atribuições para que se viva em sociedade.
Falta-lhe aquela que mais traria agregação, razão de ser, por definição, de um coletivo de pessoas voltadas para um mesmo objetivo, o elo pelo qual se conectam intenções de para o desenvolvimento comum.
Imaginam-se diferente dos demais, com direitos maiores que seus literariamente - por considerarem apenas no papel - concidadãos.
E são mesmo.
São paraplégicos morais, infelizmente. Têm apenas a habilidade de reconhecer os direitos, mas não a obrigação de contrapartida para com seus sócios políticos.
Às obrigações dispensam atenção apenas de fachada, intuindo mais vantagens necessárias à suas sobrevivências.
Duas sociedades com regras de conduta diferentes não podem coexistir territorialmente, a não ser por força externa, o que não invalida a impossibilidade: basta um esgarçamento mínimo no cadarço que as une para todo o conjunto desmoronar; e um homem em si mesmo é um pequeno país com constituição própria.
Assim sendo, seu vizinho não é um aliado, mas um concorrente e um adversário à sobrevivência.
Um homem solitário de deveres e direitos reconhecidos por outros é um estado de pobreza total: quaisquer vantagens adquiridas na prática solitária saem facilmente pela porta dos fundos da fraqueza institucional que representa.
Diante de suas mesquinharias cidadãs, acreditam-se exitosos, mas constatada a efemeridade de lucro substancial, urge consegui-lo maior, mais rapidamente, e a reação em cadeia se instala e a corrida de cadeirantes se torna frenética.
Suas fraquezas sequer os fazem perceber que até no dicionário os verbetes cidadão e estado tem sua ordem apropriada.
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