sexta-feira, 15 de junho de 2012

Avenida Brasil

Um ônibus matou cinco pessoas e feriu mais de vinte outras na Avenida Brasil, no Rio de Janeiro.
Esta é a manchete dos jornais.

Deveria ser: um motorista de ônibus matou cinco pessoas e feriu mais de vinte outras.

É necessário dar nome a quem faz uma ação; acidental, boa ou má. Não julguemos uma pessoa, mas condenemos o ato, se fortuito ou pernicioso.

A manchete e também nossa tendência é a de tornar anônima as ações humanas e isto planta algo nefasto em nossas mentes. Tendemos, por isto, a transferir a responsabilidade ao acaso: foi o ônibus que matou.

Não. Há uma lista de nomes responsáveis por aquela tragédia. E grande.

http://pt.wikipedia.org/wiki/Avenida_Brasil_%28Rio_de_Janeiro%29
Avenida Brasil - Rio de Janeiro
Pela Avenida Brasil passam milhares de veículos diariamente, exibindo, na programação televisiva involuntária dos parabrisas, as mais tristes habitações humanas de todo o município.

É o retrato condensado de décadas, séculos, de corrupção, pois o amontoado humano - em suas  várias acepções - é que dá o retrato final, sem retoques, do que se trata na CPMI atual.

O mal do Brasil não é a corrupção. Ela é apenas filha e a Impunidade sua mãe poderosa.
Pertencem à mesma família, mas a matriarca é que realmente manda.
Não obstante ser filha adorada, é deserdada sem preâmbulos assim que sua genitora se vê - agora desnaturada mãezinha -, confrontada pela Honestidade, sua inimiga mortal.

Brasília dá mau exemplo, por sua natural influência psicológica e política na população; começa por lá os altos desvios, a alta corrupção, cujos fotogramas desta fita infeliz revelam cárceres superlotados, favelização, serviços ruins, avanços de sinal, violência nos estádios de futebol, professores ameaçados e agredidos, terminando por desembocar seus sedimentos malcheirosos num delta lodoso de rio infame.
Passa em velocidade controlada, a compor a obra cinematográfica final, usando a persistência da visão e da memória.
A lista de quadradinhos deve parar por aqui. Este humilde blog não tem papel suficiente para listar todo o filme.

Esta árvore aquosa é invertida; suas raízes em cabeleira fixam-se lá no alto em terreno tóxico, para desabrochar flores e frutos mirrados, doentes e pálidos na base, cá em baixo, de ponta-cabeça.

Nestas sequelas imagináveis e inimagináveis, destacam-se os maus serviços, principalmente os de transportes concedidos, caros diante do retorno que dão à população.
Muito caros. Custam R$ 2,75 por viagem sobre pneus e um valor próximo disto para trilhos e meio aquático.
A cidade do Rio de Janeiro, por exemplo, tinha coletivos com ar-condicionado. Hoje se contam nos dedos - da mão esquerda somente - a quantidade existente deles.
Os demais fazem sofrer milhares de pessoas sob temperaturas muitas vezes acima de 38 graus em muitos meses no ano.

E nesta semana muitos esperavam num ponto de ônibus a hora de embarcar, mas morreram com os tais R$ 2,75 no bolso.

A Impunidade gargalhou naquele momento, numa avenida chamada Brasil.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Comentários com crítica serão sempre bem-vindos, desde que não haja ofensa a qualquer pessoa, cuja avaliação é feita discricionariamente pelo moderador.