sábado, 6 de outubro de 2012

As fichas caíram


A confluência de fatos que desaguaram no julgamento do Mensalão demonstra que a sociedade brasileira cansou-se dos crimes antes pressentidos e, de certa maneira, consentidos.

Enquanto no plano platônico, tolerava-se a inevitável e centenária corrupção, mas quando ela veio mostrar sua cara à luz do dia, as coisas não saíram, para os corruptos e corruptores, como rezava a tradição torta.

O primeiro sintoma claro e concreto disto foi a iniciativa de levar ao Congresso o projeto da Ficha Limpa. Não há precedentes, pois partiu da população. Houve milhares e milhares de assinaturas apoiando.

O Legislativo, o próprio alvo da iniciativa, viu-se acuado perante a moralidade e a conveniência, mas não teve como não criar a lei, embora tentasse aqui e ali tornar ambígua a interpretação dos artigos do anteprojeto, a fim de se beneficiarem, como dantes na velha toada, futuramente dos impasses por isto causados.
O uso do cachimbo faz a boca torta - já se diz há séculos também.

O julgamento do Mensalão 'correu por fora', mas tudo faz parte do mesmo fluxo de insatisfação perante os três poderes da República. Até então, o rouba-mas-faz parecia fazer parte de um consentimento que duraria mil anos.

As condições são diferentes, mas Chicago não se importava, nos anos vinte do século passado, com os mortos nas ruas, quando gângsteres matavam-se reciprocamente, pois era uma forma cínica de acreditar que a autolimpeza era interessante a todos.
Não era.

A indiferença foi um adubo e Al Capone reinou absoluto por um bom tempo.
Até que a sociedade americana cansou-se da criminalidade.
Quando quis, pôs todos na cadeia e a máfia recolheu-se ao submundo, que é o lugar natural da sua existência.

Por aqui, temos os mesmos sintomas nas grandes capitais, mas também, inevitavelmente, daremos um basta.

Voltando ao assunto principal, o julgamento do Mensalão e a lei da Ficha Limpa mostram que já pensamos como os habitantes de Chicago;  não aguentamos mais e estamos tomando as rédeas de nossos destinos.

E, acima de tudo, a iniciativa popular põe em xeque a representatividade parlamentar: será ela mesmo necessária? Terá ela a função de apenas, significativamente, obter vantagens para si mesma, como tivera, setorialmente, o partido comunista soviético ao ter a organização como objeto e fim em si mesmo na ideologia que o criara?

Quão importante para o bem-estar social a existência de vereadores? Qual foi a lei que engendraram no seu município para dizer que são necessários? Quando foi que vereadores contestaram as contas públicas, a prestação de contas de sua prefeitura? Quanto custa aos cofres públicos a existência dessa câmara?
Também, qual foi o projeto de lei que o deputado de seu voto pôs em votação no seu estado? Quanto custa a câmara de deputados do seu estado?

A representação não é para nós. São atores-personagens. São representantes de si mesmos.

Um pouco de anarquia ou contestação não faz mal a ninguém.


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